Minha carreira não deu errado. Ela deu certo.

Comecei a trabalhar aos 16 anos vendendo assinatura de revista. Cresci na área comercial, liderei pessoas, virei head e passei a ganhar bem. Eu consegui exatamente aquilo que o Renan de 30 anos queria.

O estranho foi perceber que a chegada não chegou.

Não houve uma manhã em que sentei na cadeira e pensei: pronto, venci. No dia seguinte havia mais reunião, responsabilidade e resultado para entregar.

A carreira avançava. A linha de chegada avançava junto.

Durante muito tempo, achei que o incômodo era falta de alguma conquista. Talvez o próximo salário, o próximo cargo ou mais reconhecimento resolvessem. Só que eu nunca tinha definido o que seria suficiente.

Quanto mais conquistava, mais medo tinha de perder. E, quanto mais medo sentia, mais trabalhava para garantir que aquilo continuaria comigo.

Por fora, tudo parecia organizado. Por dentro, havia uma angústia difícil de explicar. Eu olhava para a rotina e pensava: estou correndo tanto para chegar onde? E o que estou deixando de viver enquanto corro?

As coisas que me faziam bem eram mais simples do que as metas. Sentar no sofá com a Dayana e o Miguel. Jantar e conversar com ela. Fazer meu filho dormir. Ler um livro. Estar num evento da família sem olhar o celular a cada cinco minutos. Sentir que estava cuidando do corpo.

Eu não virei uma pessoa contra dinheiro ou trabalho. A vida custa dinheiro, e eu continuo querendo crescer. A diferença é que agora tento dar um endereço à ambição.

Quero que ela construa autonomia, saúde e presença. Não que transforme o presente numa sala de espera.

Talvez “quanto é suficiente?” não tenha uma resposta permanente. Mas passar a vida correndo sem fazer a pergunta também é uma escolha.

E foi essa escolha que eu não quis mais continuar fazendo no automático.