Em junho eu saí da empresa. No primeiro dia, senti medo de verdade.
A Dayana estava sem trabalhar e a renda da casa vinha do meu emprego. O dinheiro reservado não vai durar para sempre. Meus projetos ainda não geram tudo o que preciso para sustentar a casa.
Essa não é uma história de “larguei tudo e agora vivo a vida dos meus sonhos”. Eu ainda estou tentando fazer a nova vida funcionar.
Saí porque aquele modelo já não fazia sentido. Passava parte da semana em São Paulo, sentia que o trabalho ocupava quase toda a minha energia e havia vivido uma crise forte de ansiedade. Mas saber que precisava mudar não significava ter a solução pronta.
Hoje crio produtos, gravo vídeos, estudo, converso com possíveis clientes e tento vender. Uso IA e automação para ampliar o que consigo fazer sozinho. A tecnologia ajuda, mas não responde à pergunta que importa: alguém vai pagar pelo que estou construindo?
Eu sei vender. Também aprendi a construir. Acredito que consigo transformar algumas dessas ideias em negócios.
Pode demorar? Pode. Posso precisar voltar ao mercado? Também.
Talvez eu volte ganhando menos e continue com os projetos em paralelo, até que deixem de ser plano B. Não tenho vergonha disso. Voltar a trabalhar não transformaria esses meses em fracasso.
O que eu não quero é fingir uma segurança que não existe para sustentar uma narrativa bonita na internet.
Junto com o medo, veio alívio. Posso estar mais presente, cuidar melhor da saúde e construir coisas que têm mais relação com aquilo em que acredito. Às vezes consigo fechar o computador no meio da tarde e jogar bola com o Miguel.
Liberdade não chegou como ausência de responsabilidade. Chegou como o peso de escolher quais responsabilidades fazem sentido.
Ainda tenho boletos, incerteza e muito trabalho. A diferença é que agora sei qual vida esse trabalho está tentando sustentar.
