Parte da minha ambição começou antes do meu primeiro emprego.

Minha infância não foi fácil. Meu pai foi ausente e tinha problemas com álcool e drogas. Minha mãe precisou segurar praticamente tudo sozinha. Cuidava de mim, do meu irmão, da minha avó e da minha tia-avó. A gente também vivia meio endividado.

Ela fazia um esforço enorme para nos colocar em lugares bons. Ainda assim, muitas vezes eu e meu irmão éramos os que tinham menos. Era o amigo com o tênis caro e o nosso comprado na loja mais barata.

Não conto isso para dramatizar minha infância. Conto porque hoje enxergo o que aquela comparação criou em mim.

Eu queria provar que também era capaz. Queria garantir que não seria para sempre o menino que tinha menos.

Na minha cabeça, vencer significava ganhar dinheiro, ter um cargo importante e chegar numa sala como a pessoa que comandava. Eu queria sentir orgulho de mim mesmo. Só achava que esse orgulho viria da carreira.

Essa ambição me ajudou muito. Trabalhei, cresci, aprendi e construí uma trajetória profissional da qual tenho orgulho. Seria desonesto transformar tudo em trauma depois que a história mudou.

Mas existe outra camada. A ambição também era proteção. Se eu ganhasse o suficiente e fosse reconhecido, talvez nunca mais sentisse aquela insegurança.

O problema é que uma meta criada para acalmar um medo não sabe dizer quando chegou.

Sempre existe mais dinheiro, mais cargo e uma nova comparação. Você cresce por fora e continua tentando convencer uma versão antiga de si mesmo de que agora merece estar ali.

Aos 41 anos, não quero brigar com o menino que me trouxe até aqui. Quero apenas tirar dele a obrigação de dirigir tudo.

Continuo ambicioso. Só não quero mais usar cada dia como prova de que tenho valor.

Talvez amadurecer não seja desejar menos. Seja descobrir de onde vem o desejo e escolher para onde ele vai.