“Filho, o papai precisa ir. É o trabalho do papai. O papai gosta de trabalhar.”

Perto do meu aniversário de 40 anos, precisei ficar quatro dias seguidos em São Paulo. O Miguel estava fazendo teatro e eu não consegui acompanhar alguns ensaios. Ele pedia para eu não ir, e essa era a resposta que eu dava.

Eu dizia porque era verdade. Gosto de trabalhar. Também não queria que meu filho crescesse achando que trabalho é castigo.

Só que, por dentro, outra pergunta aparecia: eu precisava mesmo estar lá?

Muitas vezes não existia algo que apenas eu conseguiria resolver. A minha presença era parte do modelo. E, enquanto eu estava presente na empresa, sentia que faltava no lugar em que realmente queria estar.

Quero deixar uma coisa clara. A Dayana me disse que essa sensação de ausência era muito mais minha do que deles. Talvez ela e o Miguel nunca tenham me enxergado como o pai e o marido ausente que eu sentia que era.

Mas eu percebia uma distância entre o pai que conseguia ser e o pai que gostaria de ser.

Meu próprio pai foi ausente. Passei boa parte da vida querendo ser diferente dele. Eu não repeti a história do meu pai. Participei da vida do Miguel, fiz chamadas quando estava longe e tentei acompanhar tudo.

Mesmo assim, havia um eco que me incomodava. Não pelo álcool ou pelas drogas. Pelo trabalho.

Em alguns momentos, meu filho queria que o pai ficasse e o pai precisava ir embora.

Eu não quero que ele cresça tentando ser completamente diferente de mim, como tentei ser do meu pai. Quero que se lembre de alguém presente, parceiro e confiável. Não perfeito. Apenas alguém que participou da história enquanto ela acontecia.

O trabalho continua importante. O que não aceito mais é que toda demanda vença antes mesmo de eu perguntar o preço.